Juazeiro (Lourenço)

    Juazeiro

     

    Num sertão cearense, terra semiárida, um homem caminha debaixo de um sol a pino. Nas costas, um saco cheio de ferramentas, lâminas frias, surdas e mudas com seus cabos desgastados pela ação do tempo.

    O homem caminha. Calça sandálias de rabicho, camisa rota de mangas longas...O homem  sua, fuma cigarro de palha, olhar sereno e triste, fixo na direção da mais típica planta sertaneja: o juazeiro.

    Juazeiro, das cantigas e das curas, da sombra para o homem, para o gado, para os namorados, dos acenos da existência da água no subsolo, do fruto ácido ascórbico, alimento para todos.

    Debaixo do juazeiro, o homem, tragando solanácea, arria o saco amarelado, buscando com suas mãos calejadas as lâminas frias, surdas e mudas do machado e do facão. Ao encontrá-las dentro do saco, e de posse das algozes ferramentas da natureza, as afias na ponta de uma pedra.

    Quase meio dia, dá-se início a sessão torturante e mortal à mãe natureza: abater o frondoso juazeiro. O juazeiro verde, ficou pálido, chorou, e quando veio a cruviana forte, dobrou-se aos pés do seu carrasco-homem, pedindo-lhe para não morrer aos golpes das impiedosas lâminas. Nada adiantou. O seu algoz continuou golpeando a planta nobre da caatinga nordestina. Que tristeza! Os pássaros voaram,  clamaram em forma de canto, enviaram mensagem a papai do céu para que impedisse a sentença injusta, sem defesa, ao arrepio do estado de direito da natureza.

    Veio o primeiro golpe, veio o segundo golpe, vários golpes sucessivos, e após eles, jorrou a seiva. Sangramento do néctar da vida. O juazeiro, antes firme, agora golpeado chorava, gritava alucinado pedindo socorro e ninguém o socorreu. E num derradeiro golpe tombou.

    Aquela jovem planta de vinte e cinco anos, de aproximadamente de três metros, sussurrou baixinho a vontade de viver, e nesse o seu último sussurro, a mensagem para o homem, “ cuidem e amem a natureza, é uma só”.

    Que fim banal! Juazeiro, virou carvão, mas as suas folhas se tornaram cinzas para fincar-se em solo nordestino (cearense),lembrando que foi lençol, cobertor e tenda,nos dias de sol causticante, e nas noites de lua e estrelas, abrigou  raios furticores, manjedoura dos eternos namorados.

    Lourenço Adolpo Ferreira Soares. Quixelô (CE) 13/03/2010

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